quinta-feira, setembro 25, 2014

Um Pouco de Malandragem





"Quem sabe eu ainda sou uma garotinha..." 

A voz de Cássia Eller invade os corredores do mercado onde faço compras matinais. Dá vontade de cantar junto, o que eu faço, embora de forma discreta. Pouco depois, no entanto, escuto alguém abrir o peito sem pudores - e a mulher de seus sessenta anos, a imagem viva do alto astral em batom vermelho e camiseta do Encontro dos Jovens com Cristo, emerge do corredor paralelo empurrando seu carrinho: "Eu só peço a Deus um pouco de malandragem".

Nossos olhares e sorrisos se encontram enquanto rumo a outro setor do mercado, cantando - talvez não inconscientemente - um pouco mais alto. De gôndola em gôndola vamos nós, as vozes se aproximando e se afastando num animado trio com Cássia, até que se reencontram de vez na fila do caixa. Então, sorrimos de novo uma para a outra, aproveitamos o intervalo na música para dizer bom dia e cantamos juntas a última frase, quase que a plenos pulmões. 
Porque somos poetas, e é provável que tenhamos aprendido a amar.


quarta-feira, setembro 10, 2014

Bakuman: Laboratório de Arte e Comédia Humana



Pessoas Queridas,

Saiu novo texto meu no blog do Leitor Cabuloso. Falo sobre a série de mangá "Bakuman", focando principalmente nos personagens, que me fizeram refletir bastante sobre o ofício de escritora e sobre o que é, de fato, fazer boa arte.

Confiram aqui. E depois me digam.

Abraços a todos!

domingo, setembro 07, 2014

7 Coisas Que Aprendi Sobre o Ofício de Escrever




Depois de muitos anos, tomei coragem de olhar para o espelho e vi uma mulher grisalha. Era simpática, tinha olhos expressivos e um sorriso aberto; dava para ver que tinha viajado muito, passado por batalhas e vencido algumas.

Eis o que aprendi com as histórias que ela viveu e contou:

1. É preciso ler muito, em todos os gêneros. Todo escritor precisa adquirir uma bagagem literária diversificada. Isso influi positivamente tanto na escrita, que se torna mais rica e fluida, quanto na capacidade de criar uma boa trama.

2. É preciso sentir. Essa bagagem literária e cultural também é afetiva. Por mais que se usem técnicas, escrever é também um ato emocional, em meio ao qual vêm à tona memórias, sensações e reflexões muito íntimas. É isso que imprime nossa marca no texto e nos permite criar um vínculo com o leitor.

3. Escreva o que você gosta de ler. Se os vampiros ou as distopias estão “na moda” mas não gostamos de histórias de vampiros nem de distopias, não vale a pena nos forçar a escrever sobre isso. Por outro lado, é bom sair da zona de conforto e tentar outro tema, gênero ou estilo que nos agrada, nos intriga, nos fascina, mas com o qual não estamos acostumados a trabalhar.

4. Seja consistente e verossímil. Sua história pode se passar em outro universo, outra galáxia, ter raças e costumes diferentes, não importa: os personagens têm de ser construídos com coerência e a história precisa fazer sentido. Pesquise muito, seja sobre organizações sociais, vida cotidiana, fatos históricos ou científicos - o que for necessário para construir algo consistente.

5.Escrever é dar a cara a tapa. Nada melhor do que enxergar as qualidades de nosso trabalho, mas com toda certeza ele tem e sempre terá algo que pode ser melhorado. Alguns desses problemas serão apontados por um leitor beta, um editor ou até um crítico, e nem sempre isso será feito de forma gentil e simpática. É preciso se preparar para qualquer tipo de reação àquilo que se escreve, seja um afago ou um dedo no olho.

6. Nem editores, nem críticos, nem leitores são autoridades absolutas. Sem dúvida, há críticas pertinentes, mas muitas – muitas mesmo! - têm a ver pura e simplesmente com as expectativas, os parâmetros e o gosto pessoal de quem leu. Citando Neil Gaiman: “Às vezes mostramos histórias para as pessoas erradas, e ninguém gosta de tudo”. Não percam essa ideia de vista.

7. Honre os mestres, colabore com os companheiros, oriente os aprendizes. Isso serve para as alcateias e para as corporações de ofício, inclusive a nossa.

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Este texto integra o e-book 7 Coisas que aprendi, que reúne depoimentos de vários escritores por uma iniciativa de T. K. Pereira, o Leitor Encapuzado. Para baixá-lo gratuitamente, clique aqui.

domingo, agosto 31, 2014

Boiúna



          Coleando devagar, Boiúna sai  da toca. Imensa e assustadora cobra d´água. Mariazinha ouve o ruído e levanta depressa, mal e mal conseguindo escapar do respingo que busca sua pele.
          Mariazinha tem três anos, menina nua e só diante da cobra. Mesmo assim ela olha sem medo, apenas curiosa com o bicho que nunca viu igual. Imóvel, ela também, Boiúna fica na superfície olhando Mariazinha, agora de dedo na boca, sem saber se corre ou chama pela mãe. Tempo ela tem para decidir: tanto ficou a cobra no sossego da toca, bicho socado no oco a alimentar-se, a aumentar, não fazem diferença uns momentos. Pensa a menina e cobra-grande espera. Não há pressa.
         E de repente Mariazinha torce a cara, espia pelo canto dos olhinhos apertados. Cheiro ruim crescendo no ar, à flor das águas paradas bóia Boiúna, e nessa mansidão se acaba o seu fascínio: lembrando enfim o que aprendeu com os mais velhos, Mariazinha dá um puxão na corda, e a pororoca vem do fundo das águas e arrasta a cobra-grande.
            Fim de uma lenda.

segunda-feira, agosto 25, 2014

Espinhos



Ao atravessar o parque, como faço todas as manhãs, frequentemente me deparo com uma dupla formada por um senhor bem idoso e uma mulher de meia-idade. Não sei se ela é sua filha, parente, ou uma pessoa contratada para acompanhá-lo. Sei que os vejo sempre no mesmo lugar, um banco próximo ao portão que uso para sair, e sempre do mesmo jeito: o senhor, quieto, até cabisbaixo, e a mulher falando alto e sem descanso num telefone celular.

Quero crer que é tudo uma coincidência: que sempre passo por ali no exato momento em que ela telefona para saber de alguém, quem sabe um filho adolescente que ficou em casa, e que antes e depois dessa ligação ela dá atenção àquele senhor. E que essa atenção vai além de segurar-lhe o braço quando ele caminha. Mas meus horários variam, e às vezes me demoro olhando as árvores ou o arco-íris do chafariz, e nunca presenciei qualquer coisa diferente disso.

Tenho vontade de me aproximar, sentar-me ao lado desse senhor no banco e puxar conversa, só para ver o que acontece. Mas ainda não me atrevi a fazê-lo. Em vez disso, sigo meu caminho, sentindo que espinhos se enterram, cada vez mais fundo, nos pés e no coração da mulher grisalha.

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Imagem retirada deste site legal.